quarta-feira, 12 de outubro de 2016

1

Não quis ter aquela discussão com meus pais novamente. Não quis ouvir mais nada, é sempre a mesma coisa de todas as manhãs de quarta. Não, não tenho um namorado. E não não  faço a minima ideia de quem seja. Eu apenas recebo uma carta todas  as manhãs da  primeira quarta-feira do més. Considero possibilidades, a mais correta é que: vou morar sozinha. 

Disquei o primeiro número que pude quando sai da cozinha. Era o número de Alan, um amigo de infância que estava ali para qualquer ocorrência. Essa era minha ocorrência desta manhã. Precisar de um abrigo. O problema é que ele morava do outro lado do central parque. O problema também é sua falta de tempo, um garoto com dezenove anos que não sabe fazer outra coisa à não ser escola e viajar. Meu esconderijo  perfeito na casa de alguém que não para em casa.  

Ajeitei algumas roupas na mochila e os materiais, ainda frequentava o terceiro ano do médio, coisa comum para uma garota que tem problemas com cálculos intermináveis. Aparentemente tenho cara de quatorze anos com idade suficiente para dirigir e com mentalidade para fazer uma bomba nuclear. Não larguei a escola pois preciso dos cálculos para poder fazer uma bomba nuclear. Não que posso chegar à fazer uma na cozinha de casa, claro. 

Está frio, estou na varanda sentada na cadeira de balanço. Ela não balança de tão velha. Estou ficando preocupada com Alan, ele já deveria estar aqui. Tenho que arranjar algo pra fazer enquanto ele não vem. Engraçado estou por vontade própria do lado de fora de onde eu deveria me sentir segura, mas meus pais não acham isso. Eles tem sempre que se meterem na vida da única adolescente que suporta eles, embora eu já não sou mais considerada alguém que os suporte. Preciso fazer algo para não pirar. 

Tiro os óculos de armação grossa e limpo as lentes na camisa por debaixo do casaco. Então vejo embora embaçada, a carta. Abro-a sabendo que poderá conter qualquer coisa ali dentro. Espero faz mais ou menos três meses alguma coisa que possa dizer que serei morta ou violentada. Mas não. 

Confidente de um desconhecido. 
"Hoje reconheci alguém na rua. Não que fosse uma pessoa realmente conhecida, apenas a observei passear com seu filho. Demorou tempo demais para me tocar que as coisas estavam mudadas. Que quem um dia antes ria feito uma tola enquanto brincávamos no parquinho perto de casa, agora é uma mulher que tem uma família. Perguntei-me seriamente como o tempo pode ser um atraso, ele revela que não pode ser detido. Toda via, gastar-o é simplesmente o único caminho entre nós e o que queremos. Não se detêm o tempo, ele é cruel quando quer. Vi que era um pouco tarde para ir atrás dela e dizer o quão mudada parecia estar, mais bonita, as vezes o tempo faz isso te torna mais bonito, mais sábio." 
Parei de ler. Me distrair por alguns segundos, que foram o bastante para que me perdesse por completa. Virei o olhar para a borboleta que acabou de pousar sobre a medeira da cadeira de balanço. Ela me distraiu enquanto estava lendo. Engraçado como algo tão pequeno pode me distrair com tanta facilidade. Por sorte havia marcado com o dedo na linha onde tinha parado. 

Não deu tempo de voltar o olhar para à carta, Alan estaciona o carro alguns centímetros da garagem. Aperta a buzina uma vez e depois abre a porta do carro. Não sei se ele me viu, mas de qualquer forma quando me levanto assusto a borboleta. Quando me virei para pegar a mochila que estava na cadeira vi meus pais pela janela, ainda estavam na cozinha, talvez estivessem conversando sobre qualquer coisa. Inclusive sobre mim. Não é a primeira vez que fazia aquilo, saia e só voltava depois de alguns dias. 

- Blake? - Suspirei quando ele me despertou do que poderia ser  um momento de reflexão sobre o que acontecia em minha cozinha. Talvez alguma coisa sobre o que Blake, a filha que os suporta,  faz na casa de um amigo de infância. Nunca parei para perguntar o que eles acham de mim, acho que meus pais também não querem saber o que acho deles. Afinal de contas é sempre bom cuidar da própria vida. 

Sorri sendo contraditória à mim mesma. 

- Só um segundo. - Disse jogando a mochila para Alan. Depois fui para dentro novamente e abracei papai e dei um beijo em mamãe. Disse que os amava. Eles falam juntos em um tom amoroso: "nós também te amamos, Blake," dou um sorriso leve e vejo que Alan está esperando na varanda.  Suspiro balançando os ombros e dei passos para fora. 

- Okey. Vamos, Al. - Disse depois de me aproximar o suficiente para pegar em seus ombros e  o virar, depois comecei o empurrar aqueles degraus chatinhos que rangiam cada passo. Ele continuava com minha mochila. Entrou no carro de duas portas que não faço a minima ideia de que marca é e vou para o lado do carona. Acredito que seja um carro diferente, a cor está um pouco mais sutil. 

Levei a mão até o cinto, o prendi e seguimos.

"Não acredito que o perdi. Nenhum tempo é perdido, apenas somos escravos dele, o utilizamos de maneira errada ou em alguns casos, conheço pessoas às quais por muito já invejei por conseguirem uma coisa que nunca consegui. Eles aproveitaram o tempo, mesmo ele as vezes sendo tão frio e amargo. 
 Talvez tenha encarado o amargor por tempo demais. Ou quem sabe, apenas olhei por muito tempo para o sol e deixei minhas retinas danificadas. Uma das únicas coisas que não posso me arrepender seria de ter encontrado alguém que passei por muita coisa, mas na maior parte do tempo, foram coisas às quais gosto de recordar. Espero que encontre com quem passar um bom tempo junto. Quando gastamos tempo com pessoas que gostamos, ele nem parece passar. "

- Vai acabar sendo encontrada em algum buraco. - Ele diz como em tom irônico. Virei o olhar para ele enquanto pensava de onde já havia ouvido isso. Suspirei. Mordi o canto dos lábios e lentamente fui deslizando os dedos pelo papel. Ele usava um papel de carta do tipo amarelado que normalmente se vê em filmes. Tinha um cheiro que deixava marcada. Sorri.

- Ou talvez eu tenha feito um amigo/confidente. Qual o problema de mandar cartas para pessoas desconhecidas? É uma forma de aliviar... Se bem que atualmente se manda e-mais e coisas do gênero. - Com coisas do gênero eu quis dizer e-mais. Balancei a cabeça repensando algumas coisas. Voltei a deslizar os dedos lentamente pela carta. Seu material parecia ser suave, mas com um pouco mais de durabilidade, como se fosse papel novo.

-  Pode ser algum tipo de terapia, contar algumas coisas para desconhecidos. Em um filme fala sobre isso, só que foi uma forma para a garota esquecer... - Continuei. Ele virou o olhar pra mim em alguns segundos depois voltou a atenção ao transito. Suspirei aliviada, Alan não quis continuar o assunto. Não acredito muito que ele queira que por um pouco de desventura eu venha a ter acertado o caso, mas quando ele começa uma coisa como uma conversa que começou por um: 'vai acabar encontrada em um buraco,'  ele preferia o silêncio, talvez eu também.

Foi um longo silencio durante algumas quadras. Fiquei meio que vagando na ideia de talvez algum dia já ter esbarrado com ele ou ela... De qualquer jeito acho que é ele. Um personagem interessante para um livro. Pena que não tenho paciência para qualquer coisa que seja imaginar como uma história dessas se desenrolaria.  Um assassinato? Um romance?

-  Seu quarto está ocupado. - Ele dá um tiro assim, do nada. Minha primeira reação foi:

- Quem é a vaca? - Não sou de me referir as pessoas desse modo, mas dá ultima vez que ele alugou o quarto de hospedes/meu quarto quando eu precisava, foi para uma garota mal encarada e com mania de deixar roupas intimas sobre os cômodos. Encontrei da ultima vez uma calcinha no balcão. Acabou que os dois transaram e eu voltei pra casa. Eles transaram e eu estava no apartamento. Ouvir aquilo foi a pior coisa que já pude imaginar. Não que ouvir meus pais não fosse ruim, já que meu quarto é do lado dos deles.

- Não vou transar com um cara. - Ele ri. Dei um sinal de alivio depois me passou alguns coisas pela cabeça, como por exemplo o fato de não ter um lugar para passar a noite, isto é, terei de dormir do sofá com um cara indo e voltando, a sala fica na frente do quarto e o banheiro do outro lado.

- Mas claro, não vou te deixar na frente da porta dele. Seus pais me matariam. - Senti um pouco de sacanagem em seu tom de voz. Estreitei os lábios, isso foi meio que: 'vou eu ser a vitima de um cara que nem conheço,' ou um 'você vai abusar do meu inquilino.' Preferi não comentar de qualquer modo, não conhecia o cara tão pouco estava muito afim de continuar com o assunto. Isso me lembra, a sua antiga inquilina só transou com Alan para não pagar o aluguel.

Eram engraçado pensar nisso, embora coisas do gênero nunca tenham me divertido como realmente deveriam.

Mas como o tempo pode se mostrar tempestuoso as vezes, não é mesmo. Olhe só: ele não afasta por maldade, apenas para saber se aquele ou aquela realmente fará alguma falta no seu cotidiano. De um costume um pouco estranho tendemos a querer o que não presta. Não minta para si mesmo. Não vejo mal algum correr atrás de algo que lhe machuque, mas perceber que é hora de dar um basta e procurar algo melhor para fazer é sempre um pouco tardio. Sendo contraditório à minha frase anterior, nunca é tarde demais, não quando realmente quer alguma coisa. Ou alguém."
Fiz uma pausa. Fazia algum tempo que estava ali, no carro esperando que o outro voltasse. Me ajeitei desconfortavelmente e resolvi sair. Me preparei psicologicamente para sair do carro, ajeitei as coisas antes de ir. Me inclinei para olhar no espelho e tentei parecer casual, mas normal. Respirei fundo. Abri a porta do carro sai e depois a fechei, logo estava correndo sentindo meus pés deslizando pelas poças de água. Só mais alguns passos e já estaria dentro do mercado. Fiquei na frente da porta automática e a esperei abrir. Ela não iria abrir.

Estava debaixo do toldo coberta para não me molhar mais ainda e percebi alguém, atrás da vidraça apontando para o outro lado. Alguma coisa tinha me dito para não sair do carro, mas não tenho que ir atrás de Alan aquele cretino.  Alan o cretino do supermercado. Depois de alguma placas de descontos percebi uma entrada. Dei de cara com uma mulher gorda, baixinha e aparentava ser velha, estava segurando alguns sacolas. Suspirei pensando no que iria fazer, ela estava na frente da porta e eu esperando ela passar.

- Poderia me ajudar? - A mulher disse me olhando. Balancei a cabeça positivamente. Já estava sentindo minhas meias molhadas e do que adiantaria ficar molhada por nada. Acabei de arranjar uma desculpa para estar molhada. Ajudei alguém, uma velhinha gorda a carregar as sacolas até o carro.  Parou de chover assim que as sacolas encontraram o fundo de couro falso do carro sport dela.

- Por que? - Uma voz simplesmente aparece do nada. Virei, era Alan com um guarda-chuva e uma sacola na outra mão. Mordi os lábios com alguma coisa dizendo que não deveria meter aquele guarda-chuva em um lugar onde não pega sol. Balancei a cabeça dei um sorriso e levei a mão até o cabelo para ver a gravidade da situação. Estava molhada. Com frio. E provavelmente com um resfriado. 

- Estava ajudando uma senhora. - Disse entre um bater de queixo e alguma coisa que pareceu ser minha voz. Ele riu e depois balançou a cabeça dizendo que era para entrar debaixo do guarda-chuva. Ele tinha comprado toalhas, pipoca de micro e outras coisas que não consegui ver. Ele me dá uma tolha, me enrolo nela e tiro os sapatos antes de entrar no carro.